Coronavírus

'O Coronavírus tirou o nosso maior amor: a nossa mãe.'

Thaís Soares - 721

O mês de julho iniciava e Dejanira Delfes dos Santos, a Dona Deja como era popularmente chamada, estava bem e feliz, como sempre. Com 80 anos recém-completos, ali no mês de maio, ela demonstrava força e encorajava a todos, mas principalmente os 14 filhos, sendo 7 de sangue e 7 de coração. Ninguém imaginava que o mês de julho terminaria de forma tão triste e que tiraria da família o privilégio de conviver com Dona Deja. Ela foi à primeira vítima de Covid-19 do município de Anita Garibaldi.

Quatro dias após o falecimento, ocorrido na sexta-feira (24/07), os filhos: Renilda, Divo e Renato conversaram com o Correio dos Lagos. Sob emoção e a profunda tristeza pela ausência da mãe, eles relataram como tudo aconteceu, mas principalmente pediram: "Nós queremos falar sobre o perigo desse vírus, porque não queremos que outras pessoas passem a dor que estamos passando, e pedir também para que as pessoas tenham mais compaixão e humanidade diante dessa pandemia". A filha Rose morava junto com a mãe, mas não foi possível entrevistá-la pessoalmente, porque ela está em isolamento, pois foi positivada com Covid-19.

Os filhos recordam da mãe com muito amor e imensa gratidão. Assim foram os últimos dias que puderam, mesmo de longe, vê-la.

A anitense, natural da comunidade de São João Batista do Rosário, era diabética, hipertensa, havia realizado 2 cateterismos e 3 angioplastia (procedimentos no coração), ainda neste ano passou por uma cirurgia de retirada de útero e tinha lesão no pulmão devido a uma pneumonia. Mas nada tirava de Dona Deja o bem-estar e a vitalidade.

Porém, no dia 02 de junho, Dejanira passou mal. Os filhos relatam que no princípio a diabetes alterou, depois começou a perder o apetite, a sentir muito cansaço, principalmente nas pernas, e tinha febre. "Levamos ela para atendimento no hospital aqui de Anita, logo quando ela começou a ficar ruim. Passou do dia 02 ao dia 06, mas ela não melhorava, estava piorando, então decidimos fazer o teste de Covid-19 nela, porque ainda não tinha sido feito pelo hospital. Ela fez o teste particular no dia 07 de julho e o resultado deu positivo, infelizmente. Nossa família toda fez o teste particular, 14 pessoas no total. Poucos dias atrás ela tinha feito exames e estava tudo padrão, isso mostra o quanto o vírus agiu rápido no organismo dela."

A partir do resultado positivo para Covid-19, Dona Deja foi encaminhada para Lages através do plano de saúde que tinha. Essa foi a última vez que ela viu e falou com a família.

A anitense foi internada no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres e depois transferida para o Hospital Tereza Ramos porque teve complicações renais. "Ela foi melhorando do problema nos rins. Depois foi entubada novamente e ficou durante 11 dias em coma induzido", contam os filhos.

De todos os dias hospitalizada na cidade de Lages, que foram 16 dias, a família podia receber notícias de Dejanira apenas por meio de ligações realizadas pelas equipes dos hospitais. "Não podíamos ver ela, tínhamos que aguardar para saber notícias por ligações. Foi agoniante."

Até que na sexta-feira, dia 24, a família recebeu a ligação que mais temiam. Dona Deja não resistiu à Covid-19.

Talvez ela não soube que estava com Covid, pois os filhos preferiram não contar para a mãe. "Nós não falamos para ela em nenhum momento que ela estava com Covid-19, porque a mãe tinha muito medo de pegar o vírus. Não sabemos se depois alguém falou pra ela."

O corpo de Dona Deja foi transladado para Anita Garibaldi na manhã de sábado (25). Com caixão lacrado, a cerimônia de despedida durou apenas os poucos minutos da celebração do sepultamento.

De tudo isso que a família está vivendo, sobressai o sentimento de compaixão, em procurar um meio de comunicação para pedir que as pessoas se cuidem: "Pedimos para que todos se cuidem de verdade. Se conscientizem de que uma festa pode durar umas horas, mas pode tirar uma pessoa querida da família. O Coronavírus tirou o nosso maior amor: a nossa mãe. Nos isolamos dela durante a pandemia, não sabemos como isso foi acontecer, mas infelizmente o vírus chegou até ela e foi mais forte. Não é uma gripezinha, ele é perigoso".

A solidariedade de pessoas que ajudaram e estão ajudando nesse momento de dor, desde quando receberam os resultados como positivos para Covid, até o falecimento de Dona Deja, é enfatizada pela família que, de modo especial, agradece: "Queremos, de coração, agradecer ao pedreiro Valdir Pagno e o seu filho, ao prefeito João Cidinei por todo apoio, ao Padre Fernando, aos vereadores Ina e Laerson, as enfermeiras Camila e Rosângela, as enfermeiras e médico do Hospital Frei Rogério, aos Hospitais de Lages, a Família Padre Antônio Vieira e aos amigos Lilo Xavier, Volni Martins e Sandra Peterle. Nunca iremos esquecer os gestos e o carinho de cada um de vocês com a gente. Muito obrigado", agradeceram os filhos em nome de toda a família.

Além de Dona Deja, mais quatro familiares contraíram Coronavírus. Tiveram sintomas de vômito, cansaço, diarreia e dor de cabeça. Rose foi a última a positivar e está em isolamento. Durante a entrevista, eles citaram sobre o preconceito sofrido e o quanto isso é doloroso e torna a situação ainda mais triste. "As pessoas precisam ser mais humanas e solidárias com quem está passando por isso", enfatizam.

Na casa onde Dona Deja morava, na grande família de sangue e de coração, nos laços de amizade... agora ficou o vazio da ausência de uma pessoa muito querida, ficou a saudade, ficaram as lembranças, ficaram os ensinamentos e, principalmente, ficou o amor dela para com todos.


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