Ela é mulher e viajou sozinha em busca de um sonho

08 Março 2019 10:14:00

Kely Matos - 648

Comemorar as conquistas sociais, políticas, culturais e a liberdade de poder se expressar sem discriminações. 8 de março é o dia dedicado a elas, mulheres que lutam bravamente e buscam ocupar um lugar na sociedade.

Para celebrar a data e demonstrar a força da mulher em todos os segmentos da sociedade, destacamos nesta edição do Jornal Correio dos Lagos, a audácia e coragem de uma anitense de coração, que realizou o sonho de residir, mesmo que por um curto espaço de tempo, em outro país e seguiu para a conquista de seu sonho, sozinha. Karine Matos tem 39 anos e em agosto de 2018 embarcou rumo ao desconhecido, apenas com o desejo de viver a experiência de residir em outro país e se aperfeiçoar no inglês. A Irlanda foi o destino escolhido.

Correio dos Lagos: Como surgiu o desejo de fazer intercambio?

Karine Matos: O sonho de aprender a língua inglesa nasceu na adolescência. Minha matéria preferida na escola sempre foi o inglês. Quando tinha 14 anos recebi uma proposta de ir morar no EUA com uma família brasileira, mas era muito nova e acabei não aceitando. O tempo passou, me casei e constitui família, mas o desejo mesmo adormecido, ainda continuava. Quando tive oportunidade comecei a estudar inglês, por um tempo ia todos os sábados em Lages para estudar. Fiz por aproximadamente 1 ano e meio, mas percebi que não era suficiente. Além de ser cansativo e gerar muitos gastos, estudar apenas 1 vez na semana não me tornaria fluente, mesmo com atividades em casa. O sonho, além de aprender, era poder proporcionar para minhas filhas e outras pessoas que sentiam essa vontade e viam a dificuldade de não ter acesso em Anita, foi quando montei uma escola de inglês no município. Mesmo eu estudando por um bom tempo não tinha fluência e habilidade para dar aulas, sendo assim, contratei profissionais para a escola, a qual teve uma duração de quase dois anos e acabei optando por fechá-la, devido a vários fatores, sendo um deles a falta de professores. Com o fechamento da escola e as bruscas mudanças que ocorriam em minha vida, a vontade de aprender inglês começava a ressurgir. Voltei a frequentar um curso de inglês, três vezes por semana. Aos poucos comecei a entender que para conseguir uma fluência é preciso uma imersão, não seria algumas horas semanais que me traria a tão sonhada fluência em inglês. Após um pouco mais de um ano estudando nesta escola decidi que se eu realmente quisesse aprender teria que fazer diferente. Sou uma pessoa que dependo estar em contato com outras pessoas para estudar, não sou autodidata, estudar sozinha para mim é quase impossível e via que os colegas de classe que se dedicavam em casa aprendiam mais rapidamente. Foi aí que surgiu a ideia de intercâmbio.

Correio dos Lagos: Como foram os passos para organização do intercâmbio?

Karine: Meados de novembro de 2017 comecei a pesquisar sobre o Canadá. Minha ideia era fazer um intercâmbio de um mês, no máximo três meses. Fiz algumas cotações para o Canadá e também para a Inglaterra, mas ficou apenas nisso. Em março de 2018 voltei a pesquisar mais sobre intercâmbio e em um pouco mais de 1 mês, sem contar para minha família, eu já havia decidido e fechado meu intercâmbio.

Correio dos Lagos: Porque a escolha pela Irlanda, especialmente Dublin?

Karine: Passei a pesquisar assiduamente sobre países que me permitissem trabalhar e estudar. Foi aí que surgiu a Irlanda, além de poder ficar lá por um maior período. Optei por Dublin no início por ser uma cidade maior que me possibilitaria mais variedades de emprego. Após ter fechado para Dublin, até pensei em mudar para Cork ou Galway, cidades próximas a Dublin mas menores, com índice menor de brasileiros. Entrei em contato com uma agência indicada por um conhecido que havia ido para lá e aos poucos foram surgindo amigos de amigos que moravam lá, comecei a entrar em contato e tudo fluiu muito rápido, quando vi já estava com tudo pronto esperando o tão sonhado dia.

Correio dos Lagos: Como foi chegar em um país desconhecido e sozinha?

Karine: Sempre tentei ser uma pessoa positiva e, embora o medo sempre exista, tento não deixar ele vencer. Achei que seria muito mais difícil, embora não foi nada fácil. Eu optei em ir através de agência, isso deu um pouco mais de segurança saber que teria alguém brasileiro para me dar assistência, mas embora eu tenha recebido essa assistência, eu estava sozinha. O desafio já começou na imigração em Londres, uma das mais exigentes, onde fiquei sabendo disso após conversar com alguns brasileiros em Dublin que tiveram alguns problemas em Londres. Embora eu soubesse me comunicar um pouco, eu estava em outro país, sozinha e teria que me virar. Chegando em Dublin havia uma pessoa da agência onde me levou até minha residência provisória. Me deixou em frente a casa, disse onde teria supermercado, farmácia, entre outros serviços caso eu precisasse, e foi embora. Neste momento caiu a ficha, que eu estava morando em outro país e aquela era minha nova casa.

Correio dos Lagos: Quais as principais dificuldades?

Karine: Muitas (risos). Não posso dizer que não existe. Claro que depende de cada pessoa, para mim a maior de todas nem foi a língua e sim a moradia. Eu sabia que teria que dividir casa, quarto, enfim. Morar sozinha em Dublin é um luxo, o preço abusivo dos aluguéis devido ao grande crescimento de estudantes tornou a moradia uma das maiores dificuldades em morar em Dublin. Para mim que morava sozinha, ter que dividir foi muito difícil. A falta de privacidade, a vontade de ter um canto pra ficar sozinha, isso pesou bastante. Outra dificuldade foi o clima. Embora eu goste do frio, os dias de inverno são curtos e sombrios, a falta de sol, de ver o sol mesmo que não fosse para se aquecer me fazia muitas vezes me sentir triste. A Irlanda é um dos países com alto índice de depressão e suicídio muitos relacionados ao clima longo e sombrio de inverno. A comida na Irlanda é vasta. Há muita variedade e qualidade, além de ser barato comprar em supermercado. Muitos produtos orgânicos, mas claro que a falta e a diferença de alguns produtos que só temos aqui foi um pouco difícil adaptar. Para quem precisa comer fora é ainda mais difícil, a Irlanda não é um país gastronômico e restaurantes costumam ser um pouco caro. Da mesma forma com a língua, na rua é possível ouvir os mais variados idiomas. São misturas de muitas nacionalidades em busca de aprender um só idioma. Não é difícil ouvir português em cada esquina. Muitas vezes me sentia em casa em alguns lugares.

Correio dos Lagos: Como são os cursos de inglês?

Karine: Sobre os cursos de inglês na Irlanda depende muito da escolha. Existe milhares de escolas, ruins, boas e excelentes. Em geral a forma de ensino são parecidas, o que diferencia é a qualidade e empenho dos professores, a estrutura da escola e a quantidade de alunos brasileiros por classe, isso influencia em questão de valores. É claro que quem faz o estudo é o aluno, tudo depende da dedicação de cada um, o diferencial é que eu estava em imersão, ouvir, falar, ler, escrever, tudo em inglês. A metodologia é diferente das escolas tradicionais que frequentei aqui no Brasil, acredito que aqui, algumas escolas são mais focadas em gramática, lá é um conjunto onde se aprende vivenciando. A escola que escolhi é muito boa, gostei bastante, mas confesso que aprendi mais na vivência do que na escola.

Correio dos Lagos: O que faria de diferente se tivesse a oportunidade de retornar?

Karine: Intercâmbio não é viagem. É uma mudança. Amo viajar, já conheci alguns lugares, mas a experiência de morar fora do país de origem é outra realidade. Fui com o propósito de ficar oito meses e talvez renovar. Confesso que foi um choque de realidade. Um encantamento nos primeiros meses, tudo diferente, queria conhecer tudo. Com o passar do tempo a rotina se forma e o encanto se acaba. Analisando hoje se eu retornasse provavelmente iria tentar trabalhar. A ideia inicial era conciliar estudo e trabalho (por isso a escolha da Irlanda e de oito meses), onde me permitiria isso, mas confesso que admiro quem consegue. A maioria dos trabalhos são na área secundária, principalmente para quem está recém-chegado com um básico inglês, com uma jornada maçante, onde unindo o clima severo e muitas vezes as longas distâncias, conseguir unir trabalho e estudo acabaria limitando meus estudos. Mas foi minha opção após chegar lá e sentir como tudo funcionava. Para eu conseguir um trabalho melhor eu precisava me comunicar melhor. Hoje acredito que conseguiria encontrar um trabalho que não atrapalhasse meu estudo.

Correio dos Lagos: Indicaria para outras pessoas um intercâmbio?

Karine: Se a resposta for: "eu quero vivenciar e ter contato com as mais diversas culturas e mudar minha forma de ver as coisas", sim eu recomendo. Mas é algo bem particular. Se fosse hoje, com a experiência que vivi, eu indicaria um intercâmbio de três meses. É um período bom de contato com o idioma. Conheci pessoas de diversos países, fiz amizades, ouvi histórias e cada um tem seu objetivo e sua opinião. Hoje se me perguntam sobre minha experiência e o que eu indicaria tenho algumas questões que são relevantes. Há pessoas que vão com o objetivo de apenas estudar, outras de conciliar estudo e trabalho para tentar renovar o visto e continuar por mais um tempo, e outras que vão com a intenção de trabalhar, o estudo é irrelevante. Enfim, meu objetivo era o estudo e trabalho, que ao chegar lá e vivenciar a realidade muitas perguntas surgiram e acabei focando apenas nos estudos. Mesmo pesquisando, conversando com pessoas que fizeram intercâmbio e que moram na Irlanda, foi apenas estando lá e vivendo o dia a dia para sentir.


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